Introdução
A história do homem está intimamente ligada à capacidade de acreditar piamente em algo, e logo em seguida ter essa crença abalada. Começa logo na infância, quando assistimos a ascensão e queda de Papai Noel, coelhinho da páscoa, cegonha e a ilusão de que conseguimos passar um mês sem banho. A lista é infinita e vai se sucedendo ao longo de toda a vida. Na adolescência, por exemplo, você descobre que o tal do amor eterno é bijuteria das grossas. Aos 30 anos é o comunismo quem desmorona feito ação na bolsa. Aos 40, a ereção. E por aí vai.
Prosseguindo. Outro dia minha mãe veio me contar um caso típico desta epifania ao contrário. Ela e minha avó estavam assistindo a Quanto Mais Quente Melhor, do Billy Wilder. Meu primo, de 18 anos, que acabava de chegar à sala perguntou que filme era aquele. Minha mãe respondeu o nome, acrescentando a informação que sempre o acompanha – com a Marilyn Monroe.
Com quem?
Marilyn Monroe.
Quem?
Sim, você entendeu certo. O garoto não sabia, nunca tinha ouvido falar, era um completo ignorante em Marilyn Monroe. Nunca havia nem visto a famosa foto segurando a saia. Pronto, lá se foi minha fé de que todo terráqueo (e talvez até os ETs) conhecia Marilyn Monroe.
Toda esta enrolação foi para falar que você deve conhecer esta história. Todo mundo conhece. Pelo menos, todo mundo que sabe quem é a Marylin Monroe, e o que são Atlético e Flamengo.
No final da década de 70 e começo de 80, Atlético e Flamengo tinham os melhores times do Brasil. Nos dois estava reunida a base da seleção de 82, que encantou o mundo e fez a fama de Paolo Rossi. O Atlético havia sido o primeiro campeão brasileiro, em 71, e perdido uma final nos pênaltis, em 77, depois de passar todo o campeonato invicto.
Em 1980, o primeiro duelo. O Flamengo em busca de seu primeiro título. O Atlético procurando reparar a injustiça de 77. De um lado, o melhor camisa 10 que o Brasil produzira desde Pelé. Do outro, o melhor jogador dentro da área, segundo ninguém menos que Romário. (Zico x Reinaldo, pros leigos no assunto). Um jogo conturbado, agressões verbais de ambos os lados, agressões físicas pra cima do Rei, um juiz tendencioso, o Maracanã lotado, o Nunes driblando o Silvestre, aquele gol. Lá se foi o sonho atleticano. E lá foi o Flamengo conquistar o Brasil.
No ano seguinte os dois times se encontram novamente, dessa vez pela fase eliminatória da Libertadores. Os placares das duas primeiras partidas levam a uma partida extra, disputada em campo neutro. No caso, o Serra Dourada, em Goiânia. O campo até podia ser neutro. O juiz, não. Seria uma afronta à verdade dizer que foi uma das maiores roubalheiras do futebol brasileiro. Foi a maior. Ver o tape da partida, com as expulsões do jogadores do Galo, causa revolta. Ver especificamente a expulsão do Éder Aleixo, dá vontade de rir.
Desde então o Atlético nunca mais foi o mesmo. E as torcidas nunca mais se bicaram. Se é que um dia haviam se bicado.
Desenvolvimento
Outro dia fui com a Cris, minha namorada, ao Mineirão. Começo de namoro, quando todo dia você descobre algo novo sobre o outro. O jogo, Atlético x Flamengo. Tínhamos tudo para ganhar. Campo cheio, o adversário com alguns desfalques, eu vestindo o agasalho da sorte. Mas não. 1 a 1, apertado como brasileiro em lotação. Voltando pra casa, vem a bomba. “Na verdade, eu sou atleticana e flamenguista”.
O quê? Como você não contou antes? E você me fez assistir ao jogo todo ao lado de uma flamenguista? Assim não há agasalho da sorte que funcione.
Conclusão
Não que eu acredite nessas coisas, mas ir ao estádio acompanhado de torcedor do adversário dá um azar danado.