Abraços Partidos - crítica
Como meus dois leitores (Cris e Rick) vem constantemente me perguntando porque eu não escrevo mais, revolvi picaretar mais uma vez e publicar um texto que fiz pra outra coisa. Trata-se da crítica do filme Abraços Partidos, que escrevi para um grupo de discussão cinematográfico.
CUIDADO. Contém spoilers.
Abraços Partidos
Quando um filme inclui referências ao mundo cinematográfico é quase consenso dizer que se trata de uma homenagem ao cinema. E se na maioria das vezes não é mentira, vale a pena refletir até que ponto isto é relevante no enredo.
Das críticas sobre Abraços Partidos, o novo filme de Pedro Almodóvar, pode-se afirmar de antemão que 11 em cada 10 pessoas vão falar sobre a tal homenagem ao cinema. Afinal, a película narra a história de Mateo, um ex-diretor que ficou cego e agora se dedica a escrever roteiros. Ele é amparado por sua amarga e fiel escudeira, e o filho dela, Diego. Quando um estranho rapaz, de nome ainda mais bizarro, Ray-X, vai à casa de Mateo pedir-lhe que escreva um roteiro por encomenda, a história volta alguns anos no tempo e conta a paixão proibida de Mateo, então um aclamado diretor, e a pretendente a atriz Lena, interpretada por Penélope Cruz. Paixão que se torna proibida pelo fato de Lena ser casada com Ernesto, o empresário que financia o filme de Mateo.
Desde a abertura, com a imagem sendo vista através do enquadramento de uma câmera, o filme constrói toda sua narrativa a partir da ótica do cinema, incluindo cenas de bastidores de uma filmagem, bem como os “filmes documentais” que o filho de Ernesto faz enquanto vigia Lena e Mateo. A personagem que Lena interpreta no filme dentro do filme é uma clara (e assumida) referência a Audrey Hepburn.
Mas talvez seja a frase final que melhor resuma a metalinguagem do filme. “As películas tem que ser terminadas, ainda que às cegas.”, soa como um pedido de desculpas pelo final estranho, alegre até demais, e pouco condizente com o resto da trama.
No entanto, convém analisar outros aspectos da obra, com o intuito de não ficar restrito apenas a um ponto da trama. É curioso ver, por exemplo, mais uma vez Almodóvar usando cores fortes nos figurinos e cenários. Arrisco a dizer que em mais de 90% das cenas algum elemento de cor vermelha se destaca, provavelmente para nos lembrar de que mais do qualquer coisa, ali está se contando uma história de amor e paixão.
Em um outro ponto da história, a metalinguagem se manifesta de forma menos óbvia; Mateo conta a sua assistente a história de um pai escritor que renega o filho com Síndrome de Down por anos. O filho, mais tarde, durante uma solenidade em que o pai é homenageado, sobe ao palco e o abraça, se dizendo orgulhoso do pai. É isso que Almodóvar espera de seu filme: mesmo que muitas vezes o autor não esteja completamente satisfeito com sua obra, esta nunca vai o negar.
Há também a figura de Ernesto, o marido traído, que encarrega o filho de vigiar a esposa com sua câmera. Mais tarde, com o auxílio de uma especialista em leitura labial, tenta interpretar o que sua esposa diz. Não por coincidência, Ernesto ocupa o cargo de produtor do filme, geralmente uma pessoa que, apesar de envolvida com o processo de filmagem, sozinha pouco consegue “enxergar” da obra.
E se estendermos este raciocínio a outras seqüências, há ainda a cena em que Mateo sai do hospital e é guiado pelo pequeno Diogo em uma fria praia (a obra a conduzir o autor); quando Diogo tenta remontar as fotos rasgadas de Mateo e Lena (um filme como tentativa de redenção com o passado); a cena em que Ernesto Jr filma o último beijo do casal Mateo e Lena (a visão do público sobre a relação autor/obra); e principalmente a cegueira do personagem de Mateo (dificuldade em enxergar a própria obra).
E eu, que comecei o texto pondo em dúvida a legitimidade da suposta homenagem ao cinema contida em Abraços Partidos, acabo concluindo que ela é maior do que imaginava; Almodóvar parece não só refletir sobre o fazer cinematográfico, mas também as motivações de um autor e sua relação com a obra depois de finalizada.
CUIDADO. Contém spoilers.
Abraços Partidos
Quando um filme inclui referências ao mundo cinematográfico é quase consenso dizer que se trata de uma homenagem ao cinema. E se na maioria das vezes não é mentira, vale a pena refletir até que ponto isto é relevante no enredo.
Das críticas sobre Abraços Partidos, o novo filme de Pedro Almodóvar, pode-se afirmar de antemão que 11 em cada 10 pessoas vão falar sobre a tal homenagem ao cinema. Afinal, a película narra a história de Mateo, um ex-diretor que ficou cego e agora se dedica a escrever roteiros. Ele é amparado por sua amarga e fiel escudeira, e o filho dela, Diego. Quando um estranho rapaz, de nome ainda mais bizarro, Ray-X, vai à casa de Mateo pedir-lhe que escreva um roteiro por encomenda, a história volta alguns anos no tempo e conta a paixão proibida de Mateo, então um aclamado diretor, e a pretendente a atriz Lena, interpretada por Penélope Cruz. Paixão que se torna proibida pelo fato de Lena ser casada com Ernesto, o empresário que financia o filme de Mateo.
Desde a abertura, com a imagem sendo vista através do enquadramento de uma câmera, o filme constrói toda sua narrativa a partir da ótica do cinema, incluindo cenas de bastidores de uma filmagem, bem como os “filmes documentais” que o filho de Ernesto faz enquanto vigia Lena e Mateo. A personagem que Lena interpreta no filme dentro do filme é uma clara (e assumida) referência a Audrey Hepburn.
Mas talvez seja a frase final que melhor resuma a metalinguagem do filme. “As películas tem que ser terminadas, ainda que às cegas.”, soa como um pedido de desculpas pelo final estranho, alegre até demais, e pouco condizente com o resto da trama.
No entanto, convém analisar outros aspectos da obra, com o intuito de não ficar restrito apenas a um ponto da trama. É curioso ver, por exemplo, mais uma vez Almodóvar usando cores fortes nos figurinos e cenários. Arrisco a dizer que em mais de 90% das cenas algum elemento de cor vermelha se destaca, provavelmente para nos lembrar de que mais do qualquer coisa, ali está se contando uma história de amor e paixão.
Em um outro ponto da história, a metalinguagem se manifesta de forma menos óbvia; Mateo conta a sua assistente a história de um pai escritor que renega o filho com Síndrome de Down por anos. O filho, mais tarde, durante uma solenidade em que o pai é homenageado, sobe ao palco e o abraça, se dizendo orgulhoso do pai. É isso que Almodóvar espera de seu filme: mesmo que muitas vezes o autor não esteja completamente satisfeito com sua obra, esta nunca vai o negar.
Há também a figura de Ernesto, o marido traído, que encarrega o filho de vigiar a esposa com sua câmera. Mais tarde, com o auxílio de uma especialista em leitura labial, tenta interpretar o que sua esposa diz. Não por coincidência, Ernesto ocupa o cargo de produtor do filme, geralmente uma pessoa que, apesar de envolvida com o processo de filmagem, sozinha pouco consegue “enxergar” da obra.
E se estendermos este raciocínio a outras seqüências, há ainda a cena em que Mateo sai do hospital e é guiado pelo pequeno Diogo em uma fria praia (a obra a conduzir o autor); quando Diogo tenta remontar as fotos rasgadas de Mateo e Lena (um filme como tentativa de redenção com o passado); a cena em que Ernesto Jr filma o último beijo do casal Mateo e Lena (a visão do público sobre a relação autor/obra); e principalmente a cegueira do personagem de Mateo (dificuldade em enxergar a própria obra).
E eu, que comecei o texto pondo em dúvida a legitimidade da suposta homenagem ao cinema contida em Abraços Partidos, acabo concluindo que ela é maior do que imaginava; Almodóvar parece não só refletir sobre o fazer cinematográfico, mas também as motivações de um autor e sua relação com a obra depois de finalizada.

6 Comentários:
Uau, Rolim. Parece que voce empreendeu uma viagem sem volta ao mundo da semiótica. Suas interpretações me lembraram aquela história do Hitchcock segurando uma carta de cada naipe numa de suas pontas características. Bom retorno!
Adoro a história do pai com o filho que tem síndrome de down. E aquela cena de Mateo acariciando a imagem de Lena – comovente demais.
Ficou faltando falar da cena em que Lena dubla a si mesma, dando voz à sua própria história, até então revelada ao marido por uma terceira pessoa, através de leitura labial. A fotografia é tão bonita, a direção de arte, tudo. Pra mim, essa cena já nasceu clássica.
Também acho interessante o filme dentro do filme ser tão "Almodóvar". Porque cobram isso dele sempre (como fazem com Woody Allen). O diretor mostra que continua afiado no velho estilo, mas que está mesmo buscando caminhos diferentes.
Mesmo que "Abraços Partidos" esteja longe de ser sua obra-prima, é sempre um prazer assistir Almodóvar na tela.
Adorei sua crítica. Leve seu bloquinho mais vezes ao cinema.
Um beijo.
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